A Netflix anunciou nesta quinta-feira (26) que não seguirá adiante na disputa pela Warner Bros. Discovery, encerrando oficialmente as negociações após o conselho de administração da companhia considerar a proposta revisada da Paramount Skydance como superior. Com a decisão, a Paramount Skydance torna-se a única proponente ativa para a aquisição integral do grupo de mídia.
A avaliação do conselho da Warner Bros. Discovery apontou que a oferta da Paramount Skydance, no valor de US$ 31 por ação, supera financeiramente os termos apresentados anteriormente pela Netflix. A notificação formal foi enviada à plataforma de streaming nesta quinta-feira, iniciando o prazo contratual de quatro dias úteis para eventual equiparação da proposta — prazo que a Netflix optou por não utilizar.
Decisão estratégica e limite financeiro
Em comunicado oficial, os co-CEOs da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, afirmaram que o negócio “deixou de ser financeiramente atraente ao preço necessário para igualar a oferta da Paramount”. A declaração reforça que a saída não decorre apenas de fatores regulatórios, mas de uma avaliação estritamente econômica do ativo.
A proposta da Paramount Skydance avalia a Warner Bros. Discovery em US$ 110,9 bilhões e inclui, além do pagamento em dinheiro aos acionistas, o compromisso de quitar a multa de rescisão de US$ 2,8 bilhões devida à Netflix, além de uma taxa adicional de US$ 7 bilhões caso a operação seja bloqueada por autoridades antitruste.
Pressão regulatória no radar da Netflix
O recuo da Netflix ocorre em meio a um ambiente de crescente escrutínio regulatório. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos iniciou uma investigação antitruste para avaliar se a fusão com a Warner Bros. Discovery poderia resultar em concentração excessiva no mercado de streaming e entretenimento digital.
Segundo noticiários internacionais, Ted Sarandos esteve em Washington nesta quinta-feira para reuniões com autoridades do governo do presidente Donald Trump, pouco antes do anúncio oficial da desistência. A movimentação reforça que o risco regulatório pesou de forma decisiva na equação estratégica da Netflix.
Paramount Skydance assume protagonismo
Com a retirada da Netflix, a Paramount Skydance consolida sua posição como compradora da Warner Bros. Discovery. A expectativa é que o processo de aprovação regulatória da nova fusão se estenda ao longo de 2026, envolvendo órgãos antitruste e reguladores de mídia nos Estados Unidos e em outros mercados relevantes.
A estratégia da Paramount é adquirir a totalidade das operações da Warner Bros. Discovery, diferentemente do plano anterior da Netflix, que previa a divisão dos ativos e a criação de uma nova empresa focada exclusivamente em canais lineares.
Próximos passos da operação
A diretoria da Warner Bros. Discovery deve agora cancelar ou revisar a assembleia de acionistas inicialmente marcada para 20 de março de 2026, abrindo caminho para a assinatura do acordo definitivo de fusão com a Paramount Skydance. Como parte do novo contrato, a Paramount realizará o pagamento imediato da multa de rescisão de US$ 2,8 bilhões à Netflix.
Após a formalização, a transação seguirá para análise governamental. O período de espera previsto na lei Hart-Scott-Rodino para a Paramount Skydance já expirou no último dia 19, o que pode acelerar etapas iniciais do processo, embora não elimine riscos de questionamentos adicionais.
Análise concorrencial: foco muda do streaming para a TV tradicional
A mudança de proponente altera de forma significativa o foco das autoridades regulatórias. Se, com a Netflix, a principal preocupação era o domínio do futuro digital e do mercado global de streaming, com a Paramount Skydance o debate se desloca para a consolidação da televisão linear e da TV por assinatura.
A união entre Paramount e Warner Bros. Discovery pode criar o maior portfólio de canais lineares do mundo, reunindo marcas como CBS, MTV, Nickelodeon, Comedy Central, CNN, Discovery, TNT, Cartoon Network e HBO. Esse conjunto confere à nova companhia um poder de barganha sem precedentes frente às operadoras de TV paga, que já enfrentam queda contínua de assinantes.
Esportes e jornalismo sob escrutínio
No segmento esportivo, a combinação da CBS Sports com a TNT Sports, nos Estados Unidos, pode levantar alertas sobre concentração na negociação de direitos de ligas como NFL e NBA. Já no jornalismo, a convivência de CBS News e CNN sob o mesmo controle reacende debates sobre pluralidade de vozes, independência editorial e diversidade informativa em mídia de massa.
Por outro lado, defensores da operação argumentam que, diante do declínio estrutural da TV por assinatura, a consolidação é uma estratégia necessária para ganho de escala, redução de custos operacionais e sustentabilidade financeira no longo prazo.
Histórico da disputa
As negociações tiveram início quando a Warner Bros. Discovery firmou um acordo preliminar de US$ 82,7 bilhões com a Netflix, prevendo o pagamento de US$ 27,75 por ação. O plano incluía a separação da companhia, com a Netflix absorvendo estúdios e streaming, enquanto os canais lineares formariam uma nova empresa chamada Discovery Global.
A entrada da Paramount Skydance como concorrente mudou o jogo. No dia 17, a Warner Bros. Discovery obteve uma isenção contratual para negociar com a Paramount por sete dias. Já no dia 24, a oferta revisada de US$ 31 por ação foi apresentada e, nesta quinta-feira (26), declarada superior pelo conselho — decisão que selou a retirada definitiva da Netflix.


