A Fox News, principal canal de notícias dos Estados Unidos em audiência, voltou a movimentar seus bastidores com o objetivo de entrar no mercado brasileiro de televisão. A busca por investidores foi retomada no início de janeiro, menos de um ano após a empresa ter desistido de uma tentativa semelhante, sinalizando que o interesse no público brasileiro segue no radar da Fox Corporation.
Gabriel Vaquer, jornalista da Folha de São Paulo, revelou que executivos da Fox News haviam desistido em junho de 2025, após enfrentar resistência de potenciais investidores no país.
A estratégia atual passa pela identificação de um parceiro local de extrema confiança, com profundo conhecimento do mercado publicitário e da dinâmica da televisão no Brasil. Nas últimas semanas, executivos de grandes empresas de mídia, empresários do setor e até figuras ligadas ao meio político foram procurados para conversas preliminares sobre o projeto.
Projeto ainda embrionário, mas com público mapeado
A aposta seria em uma linha editorial semelhante à adotada pela emissora nos Estados Unidos, marcada por comentários opinativos, discurso mais conservador e alinhamento à direita do espectro político — um nicho que, segundo interlocutores, ainda possui espaço para crescimento no país. Embora o plano esteja em estágio inicial, a Fox News já teria identificado uma demanda específica de audiência no Brasil.
O principal ponto de análise da empresa é a viabilidade comercial da operação. A preocupação é clara: evitar prejuízos em um mercado onde a TV por assinatura enfrenta queda contínua de assinantes. Ainda assim, intermediários envolvidos nas negociações afirmam que o projeto pode ser lucrativo, especialmente se a Fox News apostar em um modelo de distribuição multiplataforma.
Distribuição multiplataforma e custo enxuto
Mesmo em um cenário de retração da TV por assinatura, os canais de notícias têm conseguido manter — e em alguns casos ampliar — sua rentabilidade ao apostar em modelos de distribuição mais flexíveis e integrados. A combinação entre transmissão linear, streaming, plataformas FAST (canais gratuitos com publicidade) e uma presença digital estruturada permite reduzir significativamente os custos operacionais, ao mesmo tempo em que amplia o alcance da marca para além do público tradicional da TV paga.
Esse ecossistema multiplataforma também favorece a atração de uma audiência qualificada, formada majoritariamente por espectadores com maior poder aquisitivo, alto nível de escolaridade e interesse em informação em tempo real. Trata-se de um perfil altamente valorizado pelo mercado anunciante, que vê nesses canais uma oportunidade de comunicação segmentada, com maior taxa de engajamento e retorno sobre investimento, mesmo em um ambiente de fragmentação do consumo de mídia.
Atualmente, o Brasil conta com seis de canais jornalísticos, como GloboNews, Jovem Pan, CNN Brasil, Record News, SBT News e BandNews. Já no segmento de jornalismo de negócios o país conta com Times l CNBC, CNN Money e BM&C News.
A possível chegada da Fox News ampliaria ainda mais a concorrência e poderia redesenhar o equilíbrio editorial do setor.
O histórico da Fox News até a liderança nos Estados Unidos
Fundada em 1996, nos Estados Unidos, a Fox News foi criada pelo magnata da comunicação Rupert Murdoch com o objetivo claro de conquistar o público conservador americano. Após décadas no comando do conglomerado, Murdoch se aposentou em 2023, transferindo a liderança para seu filho mais velho, Lachlan Murdoch.
O crescimento do canal ganhou força a partir da virada do milênio, quando a Fox News passou a disputar diretamente a audiência com a CNN e a MSNBC. Desde então, consolidou-se como líder entre os canais de notícias a cabo nos Estados Unidos, posição que mantém até hoje.
Em 2025, a Fox News registrou média diária de 1,1 milhão de telespectadores nos Estados Unidos, segundo dados do instituto Nielsen. Apesar de uma queda de 11% em relação a 2024, o canal manteve a liderança do segmento. A MSNBC aparece em segundo lugar, com média de 780 mil espectadores — crescimento de 6,4% — enquanto a CNN ocupa a terceira posição, com 479 mil, após queda de 15,7%.
Durante o governo de Donald Trump, a Fox News se destacou pelo apoio às políticas do então presidente e por críticas frequentes ao Partido Democrata, liderado por nomes como Joe Biden e Kamala Harris. Essa postura rendeu ao canal acusações de parcialidade, mas também reforçou sua identidade junto a uma base fiel de audiência.
A eventual expansão para o Brasil surge, portanto, como uma tentativa de ampliar a relevância global da marca e explorar novos mercados em um momento de transformação do consumo de notícias no mundo.


